Em Memória a Carolina Maria de Jesus, escrevo as Minhas.

ou de 1 a 10 O Quanto Ele Me Achava Feia?



Dia desses eu passei a manhã procurando meus HD’s. 

Objeto esse que carrega uma parte preciosa das minhas memórias. Nem preciso dizer que fiquei desesperada por um instante achando que havia perdido na mudança. Mas a vdd é que as minhas memórias não estão em um HD, estão em mim.

Memória é algo particular, mas toda memória carrega uma possível história e histórias eu gosto de contar.

Achei os HD’s dentro da mesma mala que há mais de 15 anos trouxe os meus maiores sonhos. E um deles, o de ser uma grande artista. 

Digamos que eu ainda estou no caminho, e um tanto atrasada.



Eu lembro bem desse dia, começo de 2008. 

O videoclipe de Alicia Keys “No One” ao fundo, tocava na TV sem parar. 

E assim eu pude lembrar que um dia antes eu havia recebido uma ligação de uma amiga que se formou no teatro comigo, avisando que tinha me indicado para uma peça nova da Cia da qual ela estava fazendo parte. 

Uma Cia super concorrida por sinal. 


Disse que pediram indicação de uma atriz negra, boa, bonita e que cantasse. E ela logo pensou em mim e avisou que o assistente do diretor iria me ligar. 

Fiquei esperando ansiosa.

Na ligação ele fez algumas perguntas sobre mim, mas as que de fato ficaram registradas na minha memória foram as seguintes “Érica você é realmente bonita? Porque eu vou ser sincero, o Tal Fulano, diretor gosta de pessoas bonitas!” 

Nesse momento eu tentei lembrar de todas as vezes que Mainha disse que eu era linda. Mães! Tsc 

Fiquei em dúvida num misto de quero trabalhar e preciso ser sincera, então pra tentar deixar aquela pergunta ridícula leve eu disse “Ah! Minha mãe diz que sim” 

Ele não riu, e eu percebi que ser bonita era de fato um pré-requisito para ser atriz.

Agora eu peço que respeitem meus 34 anos, pois eu sempre soube que por mais linda que eu me achasse(ou Mainha) eu não poderia esperar o mesmo do restante do mundo. 

Eu ainda pensei “krlh ele quer uma atriz ou uma miss?” 

Depois disso o Assistente ainda disse, “olha, vai com um vestidinho bem menininha, bem brejeirinha. “

Eu não lembrava de ter referência de Negras brejeiras.

Eu fiquei realmente incomodada, vou ser sincera tive medo de ser de alguma forma abusada. Mas eu sempre tive mais coragem do que medo. E como eu era muito jovem, com pouca experiência e excessivamente humilde eu pensei “acho que os jogos começaram!” 

E como tudo o que chega para mim é em cima da hora ele agendou o teste para o dia seguinte. 

E lá estava eu, com meu melhor vestido, um que eu mesma fiz. Até os arremates foram feitos à mão. 

Por incrível que pareça eu cheguei pontualmente e fui recebida pelo Assistente que pediu que eu aguardasse, pois o Tal Diretor ainda não havia chegado. 

Eu esperei por uns 20 minutos até que o Assistente me chamou. 

E de repente eu me vi frente a frente com um dos maiores nomes do teatro brasileiro. 

Eu reconheci ali toda a contribuição que ele fez para essa arte que eu enchia a boca para chamar de profissão. Isso me reanimou e eu sorri fortemente estendendo a minha mão direita que ficou parada no ar por alguns instantes enquanto o meu sorriso se despedia com o tempo. 

O Tal Fulano, o Diretor parado ficou. Olhou pra minha mão, olhou para mim e disse algo com o próprio olhar que até hoje não pude decifrar. 

A minha cabeça ficou quente, pesada. O meu corpo ficou entorpecido e eu quis vomitar tudo o que naquela fração de tempo eu havia engolido. 


O assistente percebendo a situação apertou a minha mão e me tirou de lá sem muito explicar! 

Eu pensei “Rolou um apagão aqui?”

“Deus, rolou um apagão aqui!”

Eu só lembro de estar numa sala no andar de baixo com o Assistente pedindo que eu aguardasse um instante que o Tal Fulano, diretor logo viria pra me avaliar. 

Eu esperei pacientemente como quem já havia esperado 9 irmãos virem antes ao mundo. 

Eu esperei, eu esperei, eu esperei até que o Assistente meio desconcertado pediu que eu fizesse o teste para ele mesmo, ali! Pois o Tal Fulano, diretor devia estar muito ocupado. 

“Consegue distinguir?”

Eu fiz a cena, cantei Arrastão e agradeci. Saindo arrastada de lá. 

Eu quis muito gritar “Que p&*%# que aconteceu aqui?”

Mas eu tava tão vulnerável que eu não conseguia nem xingar.

Eu não sei se vocês sabem, mas a maioria das atrizes e atores quando saem de um teste tentam relembrar o que fizeram de bom ou não tão bom assim. 

Mas a verdade é que naquele dia eu nem tive a oportunidade de ser uma atriz boa ou ruim.

E enquanto caminhava ou me arrastava eu pensava no telefonema, eu pensava na escolha da roupa e que de 1 a 10 o quanto o Tal Fulano, diretor me achava feia. 

Eu chorei sem vergonha alguma pelas ruas de São Paulo, eu chorei de raiva e impaciência no ponto de ônibus. Eu chorei porque eu não sabia quantas vezes mais eu teria que passar por isso. 

Eu chorei sentada no busaum porque o que painho me disse um ano antes começava a fazer sentido. 

Que as oportunidades não dependiam de mim, mas sim das pessoas que se recusariam a olhar para mim. 

Eu chorei porque eu teria que continuar me esforçando três vezes mais ou ainda mais pra ter a oportunidade de entrar em qualquer lugar e ainda assim correndo o risco de não ser devidamente notada ou poder ir até o fim. 


Eu chorei até chegar no portão de casa, quando eu tive que sorrir e limpar as lágrimas pra não constatar para a minha família o que de fato eles pensavam sobre mim. Sobre as minhas escolhas. Sobre a probabilidade deu chorar mais que sorrir, deu penar mais que realizar. Eu entrei em casa pela porta do meio para não ser notada, dei de cara pro espelho grande que havia na pequena e me vi.



Então ainda com os olhos vermelhos de tanto chorar eu peguei a câmera e pedi que minha sobrinha fizesse essas fotos para mim. Um registro memorável das primeiras frustrações de uma artista preta. Porque “os jogos já haviam começado” e que eu iria continuar no jogo. Porque ninguém iria outra vez arrancar o meu sorriso assim. 


P.s: O Tal diretor partiu e que descanse na paz que lhe cabe. Mas até hoje eu não sei com precisão o que ele disse naquele olhar. 

Não é de se atormentar? 


Para todas as atrizes Negras desse país

 

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